• Escola Lega Montessori

Como é que eu posso ser uma autoridade para a criança sem exercer o autoritarismo?

Alessandra Valeria Ferreira


Como é que eu posso ser uma autoridade para a criança sem exercer o autoritarismo? Sem educar de forma repressiva, punitiva? Ou ainda, sem cair no extremo oposto, o da permissividade e da falta de limites?


Hoje abordaremos o que penso ser o primeiro passo em direção à educação democrática: Desmistificar a noção da incapacidade e total dependência da criança. É sabido que um bebê recém-nascido precisa ser alimentado, trocado, aquecido e provido em suas diversas necessidades.

Mas temos que ter atenção com o caminho que esse pensamento de cuidado pode nos levar, trazendo uma ideia de que talvez a criança é incapaz e precisa do adulto para vir a ser alguma coisa ou alguém.


A criança é potente e competente. Dá conta e não precisa tanto do nosso auxílio quando consideramos que precisa. Cabe a nós, sairmos desse papel de construtores da criança e ocuparmos um papel de colaboradores desse desenvolvimento que acontece, na verdade, de dentro para fora.


Na Pedagogia Científica de Maria Montessori, acredita-se que dentro da criança existe um “guia interior”, um “embrião espiritual” que direciona a vontade e a ação da criança exatamente para aquilo que ela precisa para se desenvolver. E aos adultos, cabe auxiliar convenientemente esta construção da criança, a construção de si mesma. Parece absurdo?


Vamos refletir: ao passo que o desenvolvimento dessa criança se inicia com o óvulo fertilizado, passando pelas fases embrionárias e fetal até o nascimento... sem que façamos nada ativamente nesse processo, faz sentido pensar que a criança nascida permanece trilhando seu desenvolvimento próprio, biológico, com um comportamento motor que corresponde às suas condições de maturidade neurológica e visam atender suas necessidades de desenvolvimento.


Como observou Montessori em suas aproximadas cinco décadas como cientista da criança, precisamos confiar na capacidade da criança de trilhar um caminho próprio, um autodesenvolver-se como foi desde o princípio na sua concepção de vida...


Mas então, se eu deixar a criança lá no berço ela vai se desenvolver de dentro para fora? Vai aprender a comer sozinha com talheres, escovar dentes e andar de bicicleta?


Claro que não, mas será capaz de tudo isso e muito mais, se proporcionarmos o ambiente adequado. Que no método Montessori recebe a nomenclatura de “Ambiente Preparado”, pensado e formulado para aflorar o interesse das crianças, com livre movimentação e os recursos que sanam suas necessidades ao alcance das mãos.


As salas de aula Montessori são especialmente desenvolvidas para serem manipuladas por mãos infantis. Mas por tratar-se de um método de ajuda à vida, nas casas, as crianças podem ser apresentadas aos objetos reais, de uso cotidiano das famílias.


As metas de aprendizagem e aquisição de habilidades são trabalhadas uma por vez, com o que Maria Montessori chamou de “controle de erro”, que proporciona à criança a oportunidade de perceber os próprios erros, sem precisar de apontamentos, sermões, humilhações, pois compreendemos o erro como trajetória, parte do processo.


Alguns exemplos de controle de erro: o vidro que quando cai quebra, o suco que derrama, a tampa que não fecha, a bolsa que não abre, a peça que não encaixa, entre outros.

Isso é possível porque se trabalha um desafio por vez, isolando os demais estímulos. Por exemplo: na torre rosa que objetiva prioritariamente trabalhar noções de dimensão, todas as peças são da mesma cor, do mesmo material, sem alteração de textura e temperatura, pois o foco é a percepção da gradação de tamanho dos cubos.


E dessa forma, a criança auto educa-se com liberdade cada vez maior de escolha, a partir da superação dos seus próprios desafios de desenvolvimento. Tendo total liberdade para repetir quantas vezes quiser cada exercício, seguindo seu guia interior.


Ao invés da nossa correção ou da nossa intervenção, no sentido de fazer pela criança, nós acreditamos nelas, acreditamos na capacidade delas e queremos que as crianças saibam que podem fazer coisas difíceis, permitiremos que tentem e errem até que consigam ou que basicamente aprendam no trajeto.


O adulto quando lava a louça, o faz para ter a louça limpa e o quanto antes. Quando a criança lava a louça, ela está se construindo. O foco não é a louça limpa, e sim o desenvolvimento dela. A obra da criança é o autodesenvolvimento, sua construção como ser humano.


Percebem a diferença? O nosso lugar não é construir a criança, moldá-la com “sim”, “não”, “pode”, “não pode”, “está errado”, “faz assim” ou qualquer forma de permissão... é sobre ajuda!

Às vezes buscando acertar, cuidar e amar, nos equivocamos... ponderamos que ajudar é fazer pela criança, de modo, que a impedimos de errar, experimentar, tentar e falhar, ou quem sabe, acertar?!.

O quanto a sua ajuda à criança está sendo potência?